7 de maio de 2026. O que seria mais um dia comum na rotina de João Murilo Gomes Pereira, de 40 anos, viraria sua nova data de nascimento e parte das estatísticas do Pronto-Socorro (PS) do Hospital do Trabalhador (HT), em Curitiba. Referência em trauma, a unidade própria da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) realiza cerca de seis mil atendimentos mensais, é um dos principais pontos de referência em emergências no Paraná e tem papel fundamental para salvar pessoas que passaram por casos como acidentes, males súbitos e fraturas.
João saiu de casa por volta das 7 horas da manhã e sol entre nuvens. A temperatura naquele dia chegaria aos 26ºC. Acostumado a fazer o mesmo percurso de casa ao trabalho a pé todos os dias, em um trajeto que dura, em média, de 15 a 20 minutos, ele acabou não chegando ao destino. Tudo mudou com um atropelamento, o que também mudou a rotina de vários profissionais de saúde do HT naquele dia, exemplificando a complexidade dos atendimentos do SUS,
“O que eu lembro e posso falar com certeza é que me despedi da minha esposa, dei um beijo nela e calcei o sapato. Minha próxima lembrança já é dentro da ambulância”, recorda João. Ele foi atropelado por um ônibus ligeirinho na canaleta da Avenida República Argentina, na região do bairro Novo Mundo. “Perdi completamente esse intervalo de tempo. Deu um apagão de memória nos últimos dez minutos antes do acidente. Acredito que bati a cabeça no chão ou no ônibus. A informação que tive foi já dentro da ambulância. O socorrista falou: ‘você parou um ligeirinho na cabeça’”.
Os socorristas chegaram até o local do acidente, realizaram as primeiras intervenções e acionaram o Pronto-Socorro do HT . Com uma equipe multidisciplinar, são 27 profissionais, divididos em cirurgia geral, ortopedia, neurologia, emergencistas, pediatra, enfermeiros e técnicos de enfermagem. Todos dedicados a um atendimento de estabilização e retomada dos pacientes.
Como o próprio nome já adianta, o Pronto-Socorro é voltado ao atendimento imediato de casos graves, urgências e emergências, envolvendo risco de vida, fraturas, infartos ou acidentes. No caso do Hospital do Trabalhador, ele funciona no modelo “porta aberta”, recebendo tanto pacientes levados por ambulâncias quanto aqueles que procuram diretamente o local em busca de atendimento levados por familiares, amigos ou conhecidos.
A cada ambulância que chega, uma campainha é acionada, deixando a equipe pronta para intervir já na porta de entrada. Em casos mais graves, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) comunica o PS por telefone sobre o estado de saúde da pessoa atendida e o mecanismo do trauma. Naquele dia João foi um caso especial. Ele teve lesões nos dois pés, além de ter quebrado a clavícula e quatro costelas. Passou por uma cirurgia em 13 de maio e segue internado para reabilitação motora. Seu estado de saúde é bom, sem necessidade de suporte ventilatório.
“Os pés vão me limitar bastante porque não posso colocá-los no chão. Vou precisar me locomover de cadeira de rodas, mas, como um pé está melhor que o outro, acredito que vai chegar uma fase em que poderei usar muleta, apoiando um pé no chão enquanto o outro continua suspenso”, contou. Após a alta hospitalar, deve passar por fisioterapia para recuperar os movimentos.
“Confesso que, no primeiro dia, fiquei muito abalado. Primeiro porque não sabia a gravidade do que tinha acontecido. Pensava: ‘por que isso aconteceu?’. Tenho minha esposa e três filhas para criar, e agora, além de cuidar das meninas, vai ter que cuidar de mais um. Mas depois que me explicaram o que aconteceu, disseram que, se eu tivesse dado mais um passo, o ônibus não teria me lançado longe, teria passado por cima de mim. Minhas filhas poderiam estar sem pai agora”, disse.
O sentimento, no entanto, é de gratidão. “É difícil manter o ânimo o tempo todo, mas eu estou grato. Grato porque minhas filhas ainda têm um pai e vou poder terminar de criar elas. Minha esposa está aqui me dando todo o apoio possível, mesmo cuidando das nossas crianças. Não temos parentes próximos, somos sozinhos em Curitiba, mas temos bons amigos do trabalho e da igreja, que têm dado muito apoio pra nós”, afirmou. Ele teve alta do HT em 10 de junho e permanece com acompanhamento ambulatorial de ortopedia.
UM DIA NO PS – O trauma é caracterizado por uma lesão física causada por uma força externa que atinge o organismo. Isso envolve acidentes de carro e moto, vítimas de arma de fogo ou arma branca e quedas de altura, por exemplo.
“Atendemos, em média, cerca de 200 pacientes por dia, inclusive casos dos mais complexos que se pode imaginar. Funcionamos 24 horas por dia, sete dias por semana, recebendo ambulâncias do SAMU, do SIATE e também helicóptero”, explica o coordenador médico do PS, Rafael Vieira de Castro. “Temos duas portas de entrada. A primeira é a recepção, destinada aos pacientes mais leves, como torção de tornozelo, machucado no dedo, batida nas costas, que passam por uma triagem baseada e prioridades de urgência. A segunda porta de entrada é a das ambulâncias.”
A enfermeira Thais Gabriele Coser é uma das responsáveis pela triagem dos pacientes que chegam de ambulância. “Em geral, os traumas mais leves não são comunicados previamente para nós. Eles chegam de ambulância já protocolados, com imobilização, colar cervical. Os enfermeiros fazem a avaliação assim que elas chegam e, se o paciente precisar entrar na sala de emergência, a gente admite. Se for um paciente mais leve, ele é encaminhado para o acolhimento”, explica.
A sala de emergência, também conhecida como sala vermelha, é onde os casos mais graves são recebidos. Com quatro leitos de estabilização, o paciente recebe, de imediato, atendimento do médico emergencista e das equipes da cirurgia geral, neurocirurgia e ortopedia. Depois, é encaminhado para os exames e retorna para a sala, onde mantém o tratamento até seguir para a UTI ou o centro cirúrgico, a depender do tipo de trauma e gravidade.
Ter uma operação que garanta atendimento rápido e preciso é fundamental, ainda que haja momentos de estresse no sistema ao longo de dias específicos. “Esse é um dos poucos hospitais que tem uma logística muito boa. A sala de emergência fica ao lado de duas tomografias, uma sala de raio-X, além do centro cirúrgico no mesmo andar. Isso facilita o atendimento do trauma grave”, garante Castro. “Dentre os prontos-socorros em que já trabalhei e conheci ao longo da vida, esse é o que tem a melhor logística de atendimento do paciente grave.”
Isso reflete em atendimentos mais ágeis e, como consequência, em maiores chances de recuperação. “O paciente vermelho é o mais grave e precisa de atenção imediata. Quando ele chega, todo mundo para o que está fazendo para atendê-lo. O paciente laranja também recebe uma atenção especial. Essa triagem serve justamente para definir as prioridades”, complementa a médica residente de cirurgia geral do Hospital do Trabalhador, Sofia Julio Mastey.
“O centro cirúrgico tem a vantagem de estar perto da sala onde chegam os pacientes graves, então o deslocamento é muito rápido. Existe uma sala reservada só para emergências e a equipe já está preparada. Quando sabemos que vai chegar alguém que talvez precise de cirurgia, a equipe do centro cirúrgico é avisada. O paciente chega, passa pela avaliação inicial e, se detectarmos necessidade de cirurgia, esse processo acontece de maneira muito rápida”, destaca.
ROTINA SEM ROTINA – O Pronto-Socorro atende, em média, seis mil casos relacionados a trauma por mês. Quedas de mesmo nível, quando a vítima escorrega ou tropeça e cai sem sofrer queda de altura, respondem por 1.570, mais de ¼ dos atendimentos. A maioria é de idosos, acima de 65 anos. Acidente de carro x moto é o segundo maior tipo de atendimento, com uma média de 300 por mês.
“É uma rotina bem intensa. Nós nunca sabemos o que vai acontecer no hospital. Precisamos sempre estar preparados para o pior cenário”, explica Thais.
Cerca de 20% dos pacientes que chegam até o PS foram levados por algum serviço de urgência e emergência. Mensalmente, são 814 ambulâncias do SAMU, 440 ambulâncias do SIATE (Serviço Integrado de Atendimento ao Trauma em Emergência) e 14 pousos de helicóptero no hospital. Os pacientes que chegam por via aérea contam com um elevador direto entre o heliponto e a sala vermelha, outro ganho da logística eficiente do Pronto-Socorro.
Com tamanho número de atendimentos, o trabalho em equipe é fundamental. “A comunicação é muito importante. Quando o paciente chega, cada um tem sua função definida. Como enfermeira, fico na parte de via aérea, com o respirador. Sempre tem dois técnicos de enfermagem: um para monitorar o paciente e outro para o acesso venoso”, detalha Thais. “O médico também avalia via aérea, pupilas, nível de consciência, então é uma equipe multiprofissional, onde a comunicação é essencial.”
ATENDIMENTO HUMANIZADO – O pequeno Gael Henrique, de apenas oito meses, foi um dos pacientes do PS relacionados à queda de altura. O pai, Deivid Ítalo, estava no trabalho quando recebeu uma mensagem da creche do filho. “Quando cheguei lá, estavam todas as professoras em volta dele. Disseram que estavam trocando a fralda e, nesse momento, ele se virou e caiu do trocador. Elas já haviam ligado para o SAMU, que chegou logo em seguida e trouxe a gente para cá”, comenta Ítalo.
Logo que chegaram, Deivid e Gael foram encaminhados para a recepção e, na sequência, para os primeiros exames. “Ele fez raio-X e os exames que eles pediram e, depois, trouxeram ele para cá novamente. Agora está de alta, disseram que não teve nada grave, apenas o remédio para dor que ele vai ter que tomar”, disse.
Para o pai, o atendimento do PS foi excelente. “É interessante ver que eles realmente se importam, então foi muito bom. Ele chorou bastante, estava até agora há pouco chorando, mas ainda bem que não deu nada. Agora é levar ele para casa e deixar descansar um pouco”, complementou.
GRANDES INVESTIMENTOS – E para continuar atendendo cada vez melhor a população, o Estado mantém investimentos contínuos no espaço. Em 2025, o Pronto-Socorro do HT recebeu uma ampliação de 424 m² com investimento de R$ 2,5 milhões, garantindo melhorias na capacidade de atendimento e na qualidade assistencial.
Entre as novidades estão novos leitos para suturas e curativos, gesso e redução de fraturas, observação e aplicação de medicamentos; uma sala equipada com aparelho novo de raio-X; consultórios médicos; além de espaços de espera mais confortáveis para pacientes e acompanhantes.
Também foram investidos R$ 26,8 milhões para compra de sete novas ambulâncias, oito tomógrafos de impedância elétrica, quatro tomógrafos computadorizados, 350 camas eletrônicas e um moderno Centro de Simulação Realística do Paraná, este último com o objetivo de qualificar continuamente profissionais do SUS em todo o Estado, em uma parceria entre a Sesa, o Complexo Hospitalar do Trabalhador e a Escola de Saúde Pública do Paraná (ESPP).
“O Hospital do Trabalhador é referência em trauma. Recebemos aqui pacientes do Paraná inteiro. Além disso, somos referência para cirurgias de grande complexidade, cirurgia geral, neurocirurgia e cirurgia ortopédica de alta complexidade. A grande particularidade deste hospital é que ele é realmente preparado para prestar esse tipo de atendimento”, finaliza o médico Rafael Castro.

