No quilombo do Catucá, Zona da Mata de Pernambuco, resistiam os negros, em um Brasil ainda escravocrata. É neste cenário, nos idos de 1817, 1818, com regiões rebeladas contra o colonialismo e marcadas por fugas, que ganham força os quilombos – como o Catucá – sob o comando de negros determinados a lutar por liberdade.
Entre eles, João Batista, apelidado de Malunguinho, numa referência a malungo, como se chamavam uns aos outros, nome africano, equivalente a companheiro.
É justamente João Batista, principal líder dessa resistência quilombola na região, a figura central da história que a Unidos do Viradouro vai contar em 2025 na Marquês de Sapucaí.
Campeã do carnaval deste ano, a vermelha e branca de Niterói, Região Metropolitana do Rio, escolheu a saga do líder quilombola, anti-escravagista e libertário para defender sua posição, com o enredo “Malunguinho: O Mensageiro de Três Mundos”.
Destemido, defendeu o quilombo contra os ataques dos senhores de engenho, insatisfeitos com a resistência preta e indígena que se formava na floresta. Último líder do Catucá, ele morreu durante combate, defendendo seu povo, em 1835.
O carnavalesco Tarcísio Zanon, que já ganhou dois dos três títulos da Viradouro, incluindo o de 2024, conta como a escola pretende exaltar Malunguinho:
“É um enredo muito interessante porque a gente vai contar um personagem que sobreviveu dentro de um culto e que hoje entra para a historiografia nacional, e que a gente pretende colocá-lo num lugar de importância como ele merece: primeiro mostrando a história dele e demonstrando o quanto ele foi importante para a libertação do seu povo. Essa figura desse grande anti-herói, que foi João Batista, o Malunguinho, hoje mensageiro de três mundos na Unidos do Viradouro.”
Desbravador das florestas, para combater os invasores, João Batista aprendeu muito com os povos originários sobre os segredos das ervas. Hoje, Malunguinho é venerado no Catimbó-Jurema, culto afro-indígena à árvore sagrada de nome Jurema, que detém poderes curativos e espirituais – um dos três mundos do enredo.
Ele é cultuado como caboclo, entidade das matas, orientador espiritual e exu-trunqueiro, que abre os caminhos da floresta.
Segundo Tarcísio Zanon, os setores do enredo vão apresentar em detalhes a importância de João Batista não só na resistência aos colonizadores, mas no mundo espiritual.
“O nosso enredo é dividido em quatro setores. Num primeiro momento, a gente vai contar a história do João Batista, que é esse último dos malungos, esse líder quilombola, e logo após a gente entra nessas três falanges espirituais, em que o Malunguinho aprendeu durante a vida para que ele pudesse dar consulta hoje no Catimbó-Jurema.”
A Unidos do Viradouro será a terceira escola a se apresentar na Marquês de Sapucaí, no domingo, 3 de março, primeiro dos três dias de desfiles do Grupo Especial.
* Com supervisão de Tâmara Freire